Meus caros amigos,
Passada a dor do reencontro – é, porque reencontrá-los, mas ter que deixá-los tão rapidamente dói de verdade –, estou pronto pra rabiscar algumas palavras sobre os sentimentos que me inundaram na primeira metade desse maio tão bacana.
Depois de quase um ano e algumas oportunidades ignoradas, decidi ir a Belém. E não se tratava de uma ida qualquer. Além de tudo, minha maior amiga, minha irmã Mayra, que eu não via há um ano e meio, também iria. O planejamento do encontro coube a Mi Viejo, que organizou com a Mayra a viagem dela e me fez a seguinte intimação: “esteja em Belém no primeiro dia de maio e passe uma semana, no mínimo, filho”. Negócio fechado na mesma hora.
Passamos, então, à ansiedade do encontro. A Mayra chegaria ao Brasil por São Paulo, minha cidade atual. Com várias pessoas especiais para encontrar por aqui, mas uma única noite antes de viajarmos, ela me incumbiu da escolha de algo bem bacana, algo bem Brasil, bem a gente. Escolhi cervejas estupidamente geladas, amigos também forasteiros e Chico Buarque. Escolhi o Roda Viva, um bar sob medida para uma noite com as proporções de nossa tanta saudade.
Na manhã seguinte, fomos ao encontro de vocês, em Belém. E fomos mimados do primeiro ao último dia. Por vocês e também por novas e excelentes companhias. Mimo com comidas, com ternura, com conversas, com risos e com palavras sinceras. Foi uma impressionante reafirmação de muita amizade e de muito amor. Sentimentos esses por muita coisa que andava voluntariamente guardada na despensa, fruto de nosso incrível poder de autodefesa. Para não sofrer de saudade, certamente. Estar em Belém foi uma espécie de embriaguez constante de encantamento e de alegria. Foram dias fantásticos e noites maravilhosas, que deixaram, no final, um gosto de queremos-muito-mais.
A verdade é que as duas semanas passaram voando – e eu ia cometer o equívoco de ficar apenas uma. Não vimos todos que gostaríamos. Não fomos a todos os lugares que desejamos. Mas estivemos sempre ocupados com as coisas mais gostosas da vida. Acho que, na nossa breve estada, os dias não se dividiram em horas, em minutos. Houve uma reavaliação do tempo e pudemos, dentro de nossas possibilidades humanas, fazer o melhor na nossa Wonderland. Olha que ainda houve um tempinho – antes de dormir – pra pensar em fazer isso para sempre.
Fomos embora com uma sensação de resgate de tantas coisas boas... Eu quero registrar a saudade que vou sentir de todos que foram minimamente especiais. Foi impossível não sentir uma grande dificuldade em ir embora. Não pude deixar de sentir uma dor no coração por deixar o Yaguinho dizendo que sentiria “muita saudade dos manos”. Não deu pra não pensar na falta – física mesmo – que me farão papai, mamãe, irmãos, Lu e tantas outras pessoas maravilhosas.
Nos últimos dias, conversando sobre a inevitável tristeza de ir embora com a Mayra, que sofria com a sua partida – mais uma partida – para a Europa, ela me contou que disse a papai que não queria voltar. Ela só queria expressar o pesar de deixar. Esperava um “não, minha filha, esse momento é difícil, mas seu lugar atual é lá e vamos tocar o projeto!” e recebeu um “e aí, filha? Mas e aí?”. Difícil, hein? Percebi o quanto aquilo também me afligia – é que ocorre uma proporcionalidade entre o quanto é bacana estar num lugar e o quanto é complicado deixá-lo. Compreendi, porém, o quanto é necessário e importante, nesse momento, esse afastamento. E essa saudade voluntária. É, porque se trata de uma saudade pensada, pesada e escolhida por nós. As nossas escolhas têm peso e nos cabe suportá-lo.
Notei que, independentemente do que aconteça nos próximos meses ou anos e das decisões que tomemos, teremos sempre Belém. Teremos sempre vocês. “Fechamos lindos ciclos para abrir outros mais belos ainda, meu amor”, foi o que minha irmã me disse. Confio nisso. Tenho certeza que essa ida foi muito significativa. Foi emblemática. E deu início a um tempo em que minha terra e minhas pessoas – vocês, minha famíla e meus amigos – serão mais lembrados e valorizados ainda. E a todo o momento.
Um beijo enorme e um até breve cheio de saudades,
Yuri Jinkings