A história que conto agora envolve o pernambucano Pedro e os paraenses Thiago, Rafael, Gerson, Hugo, Diego, Bruno e alguns outros que não lembrei, nesse momento.
Há 10 anos, no Colégio Moderno, esses meus amigos, que não haviam traído o movimento e passado pro Nazaré (como eu), saturados com a longa (não posso, por todos, dizer intensa) jornada de estudos, costumavam jogar futebol na hora do intervalo entre as aulas, como forma de amenizar a ansiedade pelo fim dessa - essa sim - INTENSA luta. Muito melhor que comer um sanduíche do Bob’s. Pra eles, era ótimo. Não sei se pro resto da turma, que tinha que agüentar “cheiro de moleque” até a hora do almoço.
Uns estavam no primeiro ano. Outros, no segundo. Ensino médio justificador de toda e qualquer ausência nas aulas, afinal todos eram filhos de Deus e já havia passado anos de “estudo”. É, estudar era comparecer. Era ter horário pra acordar, pra entrar e pra sair. E haja saco pra aturar tanta imposição, tantos compromissos.
Num belo dia de sol, a bola rolou solta na quadra descoberta do Moderno. Sexta-feira e seu típico cheiro de liberdade. Muito suor, muita disposição e alegria. A campa tocou e... ninguém ouviu. Na verdade, todo mundo fingiu não ouvir. O futebol estava de primeira! E se era melhor que um cheeseburger, imaginem o quanto era em relação a uma aula de química ou de literatura.
Dez minutos se passaram e eis que surge uma figura apelidada de Coiote: inspetor e repressor dos alunos humanistas e democratas, defensores da liberdade de gazetar. “Todo mundo pra sala, AGORA!”, berrou Coiote. Acontece que a voz do Coiote, mesmo aos gritos, era mais baixa que a campainha. E é gol do Gerson!
Vinte minutos depois, após a “desistência” do insistente inspetor – ele havia subido para comunicar os coordenadores que estava rolando uma surdez coletiva lá embaixo –, ele retorna, acompanhado dos coordenadores Silvia e Guilherme, mais repressores ainda. Rapá, e não é que todo mundo voltou a ouvir?! O susto – eles achavam que não ia “pegar nada” – fez cada um começar a pensar na sua desculpa.
Metade com Guilherme, metade com a Silvia, mas para a mesma sala. Esse abuso era assunto pra ser conversado em conjunto. Chegando na sala do Guilherme, Diego intervém e inicia a série de desculpas esfarrapadas:
- Eu achava que não teria mais aula, hoje. Ouvi uma menina... errr... não lembro o nome... dizer. Ela disse que tínhamos sido liberados!
- Eu juro: não ouvi a campa tocar – disse Thiago.
- Silvia, eu já fui suspenso. Por favor, libera a gente. A gente perdeu o horário – o cara de pau Rafael falou (“nem vimos passar essa meia hora”).
- A gente só foi jogar, porque tinha aula de educação física depois... Ah, não era de Educação Física? – Bruno.
Nesse momento, Pedro interrompe a ordem de mentiras, provocando tensão nos amigos, ao dizer, “Silvia, eu vou falar a verdade”, e continuar, com seu carregadíssimo sotaque pernambucano:
- A gente ouviu, sim, a campainha tocar. Mas, sinceramente, Silvia, olhei pras pessoas subindo a escada, com uma áurea carregada, com uma nuvem negra em cima de suas cabeças, com o olhar perdido e triste, muito triste. Olhei pra Rafael, pra Gerson. Vi todo mundo sorrindo. O sol brilhando. A bola rolando. Vi alegria, vi muita alegria. E, sinceramente, pensei, Silvia... EU QUERO É SER FELIZ!
A sinceridade-com-sotaque fez Silvia sorrir e Guilherme amolecer. Todo mundo voltou atrasado e suado para as suas salas. Punidos foram os colegas de turma, porque a hora do almoço apenas começava a se aproximar e, nesse dia, tinha trinta minutos a mais de suor em cada um desses moleques.