quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Alguma Coisa Está Fora da Ordem



Gregos incendeiam Atenas diante de reduções na previdência, nos salários e em outros gastos sociais;


Chilenos reúnem-se para relembrar, sem a menor saudade, o golpe militar de 1973;

Espanhóis organizam manifestações, inclusive com greve geral, em resposta às medidas de austeridade impostas pela União Europeia e aos projetos de mudança na legislação trabalhista;

Franceses, incluindo estudantes secundaristas, defendem impetuosamente sua posição em face da reforma previdenciária aprovada pelo Senado;

Mulheres paquistanesas fazem reivindicações trabalhistas em Lahore;

Estudantes universitários e secundaristas ingleses opõem-se ao aumento de mensalidades e cortes no ensino superior;

Bolivianos protestam diante do aumento no preço dos combustíveis;

E nós?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Graças a Nós, Amém.

Esclareço, inicialmente, que não sou um ateísta. Não nego a existência de Deus. Na verdade, não tenho também muita simpatia com o agnosticismo, porque negar a possibilidade de conhecer a Deus e a origem última do universo, mas não fazer uma proposta sequer é ficar em cima do muro. É não dizer nada. É, em última análise, ser nada. E isso não me convém. Então, apresento a minha posição: o Deísmo. Uma doutrina que enfrenta a questão da existência de Deus através da razão, argumentando que Deus é o criador do mundo, mas que não intervém nos seus pormenores e, por fim, não o humaniza, ou antropomorfiza, se preferirem. Deus é tão Deus lá em casa quanto na igreja. Deus é tão Deus numa forma aparentemente humana quanto como força-motriz ou energia criadora do universo. Deus é Deus ainda que prefiramos chamá-lo por outro nome.

O assunto que me fez pensar em escrever sobre isso não é tão sério como esse primeiro parágrafo os poderia fazer supor. Todavia, obviamente, durante seu desenvolvimento, ganhará os mais altos foros de seriedade – pela relevância que suas primeiras ramificações possuem.

Eis o que me convidou a este debate: constantemente, veem-se jogadores de futebol comemorando gols e louvando a Deus, e inclusive creditando o gol ou a vitória “ao nosso Senhor”. É comum também uma pessoa que se prepara para uma prova muito concorrida dizer “se Deus quiser, eu vou passar”. Ou, ainda, alguém escapar de um acidente aéreo porque perdeu o voo e agradecer a Deus pela fortuna, sendo que alguém teve o dissabor de entrar naquele mesmo avião. Acontece que se Deus é para todos, Ele não intervém – por impossibilidade mesmo – nesses assuntos.

Deus se poupa e guarda sua atenção e seu labor para assuntos em que é mais fácil – ou em que é viável, melhor dizendo – fazer justiça. Já pensaram na complicação que ia ser definir o placar desses jogos de futebol? Zero a zero, um a um ou dez a dez. Acho até que Ele escolheria este último, afinal o público também é filho de Deus. As listas de aprovados, naquelas provas, seriam enormes. Deus – ou o legislador – teria que criar mais vagas, para começar. Os acidentes não aconteceriam, ou, no mínimo, aquela poltrona viajaria vazia. Mas substituir a sorte de um pelo azar do outro? “É o destino”, diriam os mais conformados e menos questionadores, "fez-se a vontade de Deus". Não, Deus não desejaria uma série de coisas que acontecem nesse nosso mundo.

A verdade é que há um tanto a ser feito pelos próprios seres humanos, individual e coletivamente. Deus nos deixou parte do trabalho, meu povo. Temos que acabar com essa mania de atribuir somente a Deus nossas vitórias e infortúnios. Deus, para muitos, existe. Ele coopera, sim, energia que é. Mas é necessária a nossa quase exclusiva contribuição. Nós somos definidores do nosso destino. Precisamos ter no trabalho, na bondade e em nós mesmos – enquanto humanidade – fé idêntica àquela que muitos depositamos no Criador. Deus já fez a parte dele. Criou um mundo de possibilidades lindas. Permitiu-nos a vida. Deixemo-no descansar agora.

Há mesmo, sem nenhuma dúvida, incontáveis manifestações de divindade no nosso mundo. O pensamento positivo e o bem-querer são exemplos. A paz que reina em muitos lugares do mundo e o altruísmo de desinteressados são outros. Mas há diversos outros que, por não terem a cara ou o dedo de Deus, são atribuídos ao demônio ou a outras entidades coléricas. Não, gente, essas outras situações – diversas e horríveis – são do ser humano. O homem tem o bom e o podre em si, e lhe incumbe decidir como agir. O Bem e o Mal – grafados com maiúsculas, como no imaginário popular – estão aqui dentro. Liberemos a parte boa e reprimamos a ruim. Isso é um exercício que só à humanidade cabe.

Por que muitas vezes o destino desta mesma humanidade está nas mãos de pouco mais que vinte homens? Duas dezenas de homens que decidem sobre a política externa de países poderosos bélica e economicamente. Cerca de vinte homens que definem o que outros seis bilhões viverão. Por quê? E em que estão pautadas as suas decisões? Deus guia e ilumina a mente desses homens? Fê-lo no passado, durante as mais sanguinárias guerras que esse globo assistiu? Não, “meu deus”, foi culpa dos homens. O que ocorreu é atribuível somente aos homens.

O homem precisa deixar de se ver vítima e objeto de manipulação de outros homens ou mesmo de uma divindade, cujas vontades são muitas vezes deturpadas pelo próprio homem, porque, em última análise, isso justificará – como justificou, no passado – as condutas mais incompreensíveis. O dogma religioso já legitimou mortes e fez muito sangue derramar. E, com absoluta certeza, não é a isso que se propõe. O “barco” – ou a arca – é o mesmo para todos nós e chegou o momento de darmos mais valor às nossas semelhanças como seres humanos e habitantes da mesma “casa” do que às nossas diferenças quanto às convicções religiosas – e também as políticas, ideológicas, filosóficas. Nós somos responsáveis pelo futuro do Planeta e da humanidade. Deus nada poderá fazer se não nos dermos conta de que somos fundamentais no processo da nossa própria salvação. Vamos acordar enquanto é tempo e mudar – das menores às mais importantes condutas.

Comecei com aqueles exemplos, porque, embora inconscientemente, achar que sua reza é mais forte ou que você é mais merecedor da graça de Deus do que seus semelhantes já é o início de um pensamento egoísta. E o egoísmo, apesar de ser o que mais se vê por aqui, é do que menos precisamos, atualmente.

Que tenhamos um natal maravilhoso, um ótimo final de ano e um doiSMILEonze de mudanças muito positivas. A transformação do mundo começa dentro de cada um de nós.

domingo, 28 de novembro de 2010

Um pensamento solto

Nós nascemos com duas sentenças contraditórias. Uma que nos "condena" à liberdade. Outra que nos estabelece, desde o início, um final.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Futebol no Recreio

A história que conto agora envolve o pernambucano Pedro e os paraenses Thiago, Rafael, Gerson, Hugo, Diego, Bruno e alguns outros que não lembrei, nesse momento.

Há 10 anos, no Colégio Moderno, esses meus amigos, que não haviam traído o movimento e passado pro Nazaré (como eu), saturados com a longa (não posso, por todos, dizer intensa) jornada de estudos, costumavam jogar futebol na hora do intervalo entre as aulas, como forma de amenizar a ansiedade pelo fim dessa -  essa sim - INTENSA luta. Muito melhor que comer um sanduíche do Bob’s. Pra eles, era ótimo. Não sei se pro resto da turma, que tinha que agüentar “cheiro de moleque” até a hora do almoço.

Uns estavam no primeiro ano. Outros, no segundo. Ensino médio justificador de toda e qualquer ausência nas aulas, afinal todos eram filhos de Deus e já havia passado anos de “estudo”. É, estudar era comparecer. Era ter horário pra acordar, pra entrar e pra sair. E haja saco pra aturar tanta imposição, tantos compromissos.


Num belo dia de sol, a bola rolou solta na quadra descoberta do Moderno. Sexta-feira e seu típico cheiro de liberdade. Muito suor, muita disposição e alegria. A campa tocou e... ninguém ouviu. Na verdade, todo mundo fingiu não ouvir. O futebol estava de primeira! E se era melhor que um cheeseburger, imaginem o quanto era em relação a uma aula de química ou de literatura.

Dez minutos se passaram e eis que surge uma figura apelidada de Coiote: inspetor e repressor dos alunos humanistas e democratas, defensores da liberdade de gazetar. “Todo mundo pra sala, AGORA!”, berrou Coiote. Acontece que a voz do Coiote, mesmo aos gritos, era mais baixa que a campainha. E é gol do Gerson!

Vinte minutos depois, após a “desistência” do insistente inspetor – ele havia subido para comunicar os coordenadores que estava rolando uma surdez coletiva lá embaixo –, ele retorna, acompanhado dos coordenadores Silvia e Guilherme, mais repressores ainda. Rapá, e não é que todo mundo voltou a ouvir?! O susto – eles achavam que não ia “pegar nada” – fez cada um começar a pensar na sua desculpa.

Metade com Guilherme, metade com a Silvia, mas para a mesma sala. Esse abuso era assunto pra ser conversado em conjunto. Chegando na sala do Guilherme, Diego intervém e inicia a série de desculpas esfarrapadas:
- Eu achava que não teria mais aula, hoje. Ouvi uma menina... errr... não lembro o nome... dizer. Ela disse que tínhamos sido liberados!
- Eu juro: não ouvi a campa tocar – disse Thiago.
- Silvia, eu já fui suspenso. Por favor, libera a gente. A gente perdeu o horário – o cara de pau Rafael falou (“nem vimos passar essa meia hora”).
- A gente só foi jogar, porque tinha aula de educação física depois... Ah, não era de Educação Física? – Bruno.

Nesse momento, Pedro interrompe a ordem de mentiras, provocando tensão nos amigos, ao dizer, “Silvia, eu vou falar a verdade”, e continuar, com seu carregadíssimo sotaque pernambucano:
- A gente ouviu, sim, a campainha tocar. Mas, sinceramente, Silvia, olhei pras pessoas subindo a escada, com uma áurea carregada, com uma nuvem negra em cima de suas cabeças, com o olhar perdido e triste, muito triste. Olhei pra Rafael, pra Gerson. Vi todo mundo sorrindo. O sol brilhando. A bola rolando. Vi alegria, vi muita alegria. E, sinceramente, pensei, Silvia... EU QUERO É SER FELIZ!

A sinceridade-com-sotaque fez Silvia sorrir e Guilherme amolecer. Todo mundo voltou atrasado e suado para as suas salas. Punidos foram os colegas de turma, porque a hora do almoço apenas começava a se aproximar e, nesse dia, tinha trinta minutos a mais de suor em cada um desses moleques.       

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Diálogo de Bastardos Inglórios

Diálogo entre Cel. Hans Landa e Monsieur La Padite (coronel nazista e agricultor francês judeu, respectivamente, personagens de Bastardos Inglórios) que remete às "discussões" e diferenças do eleitorado brasileiro:

Landa - Mas acredito que o atributo que o povo alemão compartilhe com um animal, seja a astúcia e o instinto predatório de um falcão. Já os judeus compartilham o atributo comparável ao de um rato. 
A propaganda do Fuhrer e de Gobbles diz quase a mesma coisa. Onde nossas conclusões diferem, é que não considero a comparação um insulto. Considere por um momento o mundo de um rato. É um mundo hostil, de fato. Mas se um rato entrar pela sua porta agora, o trataria com hostilidade?


La Padite - Eu suponho que sim.


Landa - O rato já te fez algo para criar essa aversão que sente por eles?

La Padite - Os ratos transmitem doenças e mordem as pessoas.

Landa - Os ratos causaram a peste bubônica, mas foi há algum tempo. Tanto ratos quanto esquilos transmitem as mesmas doenças. Concorda?

La Padite - Sim.


Landa - No entanto, presumo que não sinta a mesma aversão a esquilos, não é?

La Padite - Não, não sinto.

Landa - E ambos são roedores, não? E exceto pela cauda, são bem parecidos, não?

La Padite - É um pensamento interessante, Herr Coronel.


Landa - Apesar de interessante, não fará diferença em como se sente em relação aos ratos. Se um rato entrar pela porta, agora, e andar por aqui pela sua casa como andei, você o ofereceria um prato do seu leite?

La Padite - Provavelmente não.

Landa - Eu achei que não. Você não gosta deles. NÃO SABE POR QUÊ. Só sabe que os acha repulsivos.


Meu (Yuri) comentário: Esse diálogo veio da mente criativa do inteligente Quentin Tarantino. Landa é fictício e nazista, mas nos passa uma mensagem interessante do que sentiam os alemães nazistas pelos judeus, naquela época. Repulsa e não se sabia o porquê. Não importa, rato ou esquilo, judeu ou nazista, petista ou psdbista, Serra ou Dilma, estamos no mesmo barco. Principalmente, nós, brasileiros. Nossas discussões deveriam ser mais respeitosas e construtivas. E deveríamos tentar, pelo menos, ser menos ofensa, mais inteligência e nos despir de nossos preconceitos. "Você não gosta deles. NÃO SABE POR QUÊ. Só sabe que os acha repulsivos". ;)

sábado, 23 de outubro de 2010

Quero dizer que te amo só de amor (Roberto Freire)





Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras, pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no papel.
Ser-nao-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes. Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen. São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e dançam fazendo o amor como faço o poema.
Quero da vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grande amor, mas virá sempre antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço. Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me das o gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca.


Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.

(Roberto Freire)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Esse Cara

Quando criança, ele era tímido, retraído e, muitas vezes, mal-humorado. Entre familiares, era carinhoso e brincalhão. Contraditório. Uma criança impaciente. Brincava como todas as outras e pensava como nenhuma. Era inquieto, na mente e no corpo. Porém, desde essa época, percebeu-se que a paixão pautaria a sua vida. Não somente por pessoas: tudo, potencialmente, era objeto de suas paixões. Apaixonava-se facilmente por qualquer coisa. 

Com mais idade, foi perdendo a timidez. No entanto, menos tímido ele ficava, mais agressivo aos olhos dos outros parecia. Mas ele era amável. E pouca gente percebia. Começou a notar que precisaria de mudanças. Para ter e cultivar amigos – e estes ele não abandonaria até o final da sua vida –, tentou, muitas vezes sem êxito, controlar a impulsividade. Conseguiu, algumas vezes, ter estabilidade e solidez emocional. Ele era “de lua”, como diziam os amigos e as primeiras namoradas. Melhorou, sem dúvida. Mas aquela alma era febril. Não sossegaria nunca. Sentia sempre falta de alguma coisa em si e isso parecia ser o seu próprio combustível. Era isso que o impulsionava a procurar melhorias em seu ser. 

Esse cara defendia com tanta força e emoção suas opiniões que todos julgavam que ele estava brigando. Nada disso, gente. Era paixão! Paixão pelo debate. Nada poderia impedi-lo de dizer tudo que estava em sua cabeça quando ele achava que estava certo - mesmo que viesse a se arrepender depois. E quantas vezes arrependeu-se! O seu instinto impulsivo o traiu em inúmeros momentos. E tantas foram as vezes que esse mesmo instinto o salvou. 

Entregava-se às paixões e aos amores com voracidade. Tinha mesmo um apetite devorador e insaciável. Adorava uma frase do Cazuza que dizia: "Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta". Ligava a seus relacionamentos. Mas, às vezes, saía deles com a mesma rapidez e violência com que havia entrado. Sofreu um tanto, mas foi, assim, feliz em grande parte da sua vida. Costumava dizer que a busca incessante do ser humano é o amor. E acreditava nisso. 


Relacionava-se com sua família com mais amor e paixão ainda. Parecia não caber dentro daqueles seres tanto sentimento. Eles eram tanto coração, era tanto sentimento, que foi inevitável não haver brigas também. Mas não havia um ser no mundo que não visse uma desmedida beleza na relação daqueles três. Foi a coisa mais forte e bonita que eu já vi na minha vida. 

Esse cara era contraditório em essência, o que revelava o quão humano ele era por trás das impressões que deixava por aí. Personalidade fortíssima, gênio difícil, senso de humor sem rival, às vezes grosseiro, mas com um coração do tamanho do mundo e um senso de justiça que carregava desde a infância. Poderia até ser grosso, mas dificilmente cometia injustiças, e se o fizesse, tinha a humildade de reconhecer os erros, consertá-los e desculpar-se de todo o coração. 

Eu que conheci, posso dizer: esse cara foi um guerreiro. Travou lutas intermináveis contra si mesmo. Lutou contra as contradições. As suas e as do mundo, ao seu jeito. E, digo: além de guerreiro, foi um vencedor. Conseguiu mudar o mundo ao seu redor. Marcou a vida de pessoas maravilhosas. Buscou o bem, sempre, para si e para os outros. Foi, sobretudo, corajoso para encarar suas imperfeições e buscar incessantemente o amor. O amor por si e pelo ser humano. E conseguiu. 

Uma Certa Galinha Assada (texto do meu pai Álvaro Jinkings)

Ainda não me adaptei a internet, confesso-me um analfabeto completo, um preguiçoso talvez um “tecnófobo”!

Quando eu vi o blog do meu pai Raimundo Jinkings me veio muita história, talvez 40 anos em 1 minuto e tudo muito rápido, quase instantâneo. E somem. É como se eu fosse obrigado a fugir destes pensamentos; pra não sofrer, certamente. É o nosso incrível instinto de defesa e de sobrevivência.

Vou tentar me desbloquear, e viajar alguns momentos da minha grande e educativa convivência com 
“Mi Viejo”. Acho que pouquíssimas vezes me lembro dele me dizer:
- Faz assim! ou
- Não faz assim !

Ele me ensinava de outra forma, ele dava exemplo toda hora. Prestando atenção nos mínimos detalhes, eu aprenderia muito pro resto da minha vida. Eu me orgulho muito de ser filho dele: A humildade, a garra, a sabedoria, o equilíbrio, a obstinação e a determinação em lutar! Ele, pelos menos favorecido, pelos excluídos, não tinha apego ao dinheiro e nem ao poder. Inteligentíssimo, um verdadeiro autodidata, presenciei discussões homéricas dele com juizes, advogados, políticos, sindicalistas, estudantes, etc. Qualquer assunto ele dominava, menos futebol! Onde eu dava um show nele.

Nas poucas vezes em que eu não lhe entendi recorri à mamãe, a pessoa que mais o conhecia. Ela o interpretava com ternura e compreensão!

Lembro que apesar das inúmeras provocações e discriminações, nunca deixei de amar e entender “Mi viejo” como o maior de todos, o mais patriota, o mais coerente ( a cada dia que passa mais o valorizo ou seja quanto mais vivo, quanto mais conheço o mundo, mais o valorizo, e mais eu tento imitá-lo).

Hoje conto pro Yago, meu caçula as histórias do Vovô Jinkings que infelizmente ele não conheceu. Mayra e Yuri conviveram com ele por quase 10 anos, não o ideal, nem o necessário, mas o possível!

Aconteceu um fato quando eu ainda era criança que sempre me vem a cabeça. É um momento de absoluta covardia, e a mamãe me pediu para eu relatar aqui: Papai acabara de passar mais ou menos 90 dias preso na 5ª Cia de Guardas e nós (eu e mamãe) fomos até lá para trazê-lo para casa, onde meus irmãos nos aguardavam. Saíamos nós três, ele no meio de mãos dadas com mamãe e apoiando a mão no meu ombro, não chegamos a caminhar 100m quando parou um jipe do exército do nosso lado e perguntou: - Sr. Raimundo Jinkings? - Sim! Papai respondeu. – Queira me acompanhar por favor ! – Temos uma ordem de prisão! Ele, inabalável! Beijou a mamãe, me sorriu e entrou no jipe. Mamãe desabou! Era a tortura psicológica, a sacanagem, a covardia! Era a ditadura na sua face mais cruel, foram mais uns 15 dias no 26º BC 
[1], quando finalmente nós pudemos comer a “galinha assada” pra comemorar sua liberdade. Desta vez fomos todos buscá-los num táxi grande, um aerowillis. Talvez a mamãe pensasse em trazê-lo “na marra”, caso aparecesse outro jipe.

Depois eu conto a do porco, ou melhor: o Yago vai contar a do porco, viu vó!

ÁLVARO JINKINGS

[1] 26º Batalhão de Cavalaria

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Cães: lição de lealdade

Assistir "Sempre ao seu lado" é lembrar de quanta beleza e quanta verdade há na relação do cão com o homem. Esse é um filme que ultrapassa os limites do saudável, fazendo sofrer impiedosamente aqueles que amam esses animais. Mas não é só tristeza. É reflexão. O filme demonstra com clareza o que, infelizmente, muitos nunca conhecerão: a natureza do relacionamento do cachorro com o ser humano por ele escolhido como dono.

A relação do cão com o dono deve ser o mais nobre e mais bonito conviver nesse universo de sensações a que chamamos 'vida'. É pura beleza. É companheirismo, generosidade e abundância de carinho a toda prova. É a definição perfeita – e sem utilizar palavras, versos ou um pedaço de papel – da palavra amizade. Talvez só não se possa dizer completamente desinteressada, porque há duas coisas nos humanos que aos cãezinhos interessam: amor e abrigo. Tão pouco perto do que nós, humanos, queremos, esperamos e às vezes até exigimos.

O cão relaciona-se com o homem com total ausência de rancor. O cão transborda meiguice mesmo depois de gritos ou "afagos" não tão carinhosos assim – e faz questão de demonstrar com o seu rabinho. Não há ressentimento. Não podemos negar que, nesse aspecto relacional, eles é que nos dão um "banho". E que bonito é perceber e, principalmente, poder viver isso. Deveríamos aprender mais com os cães.

O cão nos dicionariza também a palavra lealdade – o que, de certa forma, está contido no conceito de amizade – e o faz, mais uma vez, com atitudes e não com retórica, promessas ou sussurros ao pé do ouvido. O cachorro, como dito, quer pouco e mesmo quando não lhe é dado, impossível abandonar o seu dono. Ele é fiel mesmo quando ao homem falta fidelidade. E é o maior companheiro do ser humano – por que não ser também o seu maior companheiro?

Não percamos a sensibilidade para continuar aprendendo com suas lições. Não ignoremos a importância desses animais para os seres humanos – além de toda a parte afetiva, o que seria de cegos, solitários, idosos, crianças abandonadas? Estejamos sempre atentos e sejamos sempre cuidadosos com eles. E, principalmente, nunca esqueçamos do que aqueles rabinhos, olhinhos e latidos querem nos dizer e ensinar.

O Extraordinário Poder das Palavras

Emana das palavras uma força desmedida. Mas a palavra, o que é? Junta sons articulados, de uma ou mais sílabas, com significação, e tu encontrarás uma delas. Acharás apenas uma de um universo inteiro, chamado Língua Portuguesa. Esse universo, assim como uma floresta ou um oceano, precisa ser desbravado. Ele quer ser conhecido. Afinal, tão poucos o conhecem...

Cada palavra tem poder próprio, como se fosse o seu brilho. Bem dispostas e organizadas, adquirem um brilho cada vez maior: são as frases; são os textos bem construídos; são os livros! Se uma palavra tem força por si só, o que dizer de um livro? Quanto poder e quanto brilho tem um bom livro?

Num mundo de futilidades, os livros são esquecidos. Mas eles não perdem o brilho um minuto sequer. São as pessoas que deixam de percebê-lo. Elas passam a ignorá-lo, renunciando ao brilhoso poder da palavra. Por que isso acontece? Porque a vida está ironicamente corrida e as pessoas esquecem de lembrar de ler. Com tanta informação e com tanta evolução em todos os campos científicos, com tanta leitura disponível, a situação é explicitamente paradoxal.

Ainda há esperança. Morrem ótimos autores, grandes representantes da palavra. Nascem péssimos leitores representando nossa época. Mas a esperança não morre. Enquanto existirem cérebros pensantes, a revolução literária não há de ser utópica.

Agora, peço a palavra para falar-lhes diretamente. Invoco o extraordinário poder da palavra para recomendar-lhes uma viagem. Desejo-lhes uma ótima leitura e espero que minhas palavras possam servir de incentivo para que a revolução aconteça dentro de vocês. Quem lê, viaja. Então, apertem os cintos e façam essa viagem a qualquer lugar, na época que lhes convier, sem padrões. Vocês gostarão, palavra de honra!

Um dia..


Um dia, nostalgicamente, olharemos para trás e veremos que estes vinte e cinco anos das nossas vidas valeram a pena. Tudo aquilo que, sob uma perspectiva jovem, considerávamos erros ou acertos perderá o sentido. Deixaremos de classificar esses acontecimentos. Apenas saberemos que eles tiveram uma participação totalmente decisiva para sermos aquilo que nos tornamos.
Nestes vinte e cinco anos, acumulamos sucessos. Compartilhamos alegrias, sorrisos e choros de derrota. Viajamos juntos, no sentido literal e no figurado. Aprendemos que a vida também é feita de perdas (é, gente, elas existem...). Vivemos, nestes vinte e cinco anos, e como vivemos! E, depois de um tempo, o que importará será a nossa amizade, a experiência que adquirimos e a cumplicidade que se criou entre nós.
Um dia, reuniremos em uma varanda qualquer. Beberemos recordações. Lembraremos de já ter esquecido onde, quando e como nos conhecemos. E como nos tornamos amigos. Apenas seremos. Saberemos uns aos outros. Talvez menos na memória e no dia-a-dia do que no coração. Perguntaremos como a amizade com uma pessoa tão diferente (e nossas diferenças serão ainda mais gritantes) pôde se tornar tão indispensável, apesar da distância que, fatalmente, haverá entre alguns de nós.
Um dia, reviveremos nos nossos filhos a nossa juventude. Olharemos para eles e lembraremos uns dos outros. Recordaremos, indistintamente, pela idade, do Moderno, do Nazaré, de Mosqueiro, de Salinas, das casas uns dos outros, das sensações, dos gostos, dos cheiros... e até do Domingos jogando futebol. Tá bom, essa última talvez não seja uma lembrança tão difusa. É que, indeliberadamente, lembraremos com solidez de alguns fatos. E este, não adianta, ficará na nossa memória. Assim como tantos outros, menos engraçados e mais importantes.
Atrás dessas memórias, um dia, reviraremos fotos amareladas e acharemos velhos bilhetes de amores e de amigos. Constataremos a importância que cada uma dessas pessoas tem nas nossas vidas. Sentiremos falta de algumas delas e não ligaremos para todas, é fato. Algumas, por falta de um número de celular. Outras, por mais estranho que pareça, porque o ser humano tem disso de sentir saudade clandestinamente.  
Um dia, lembraremos de como éramos jovens e vigorosos. Olharemos no espelho e não veremos a mesma mocidade de antes. Os cabelos ficarão grisalhos e surgirão pés-de-galinha. Os nossos músculos perderão a rigidez e teremos que aceitar a velhice. Saberemos que a beleza externa é fugaz. Mas, apesar dessa efemeridade, perceberemos que, por dentro, fomos lapidados.
Entenderemos, um dia, com maior clareza, aquilo que nos diziam nossos pais. Teremos uma saudade absurda deles. Entenderemos tantas outras coisas que pensávamos ser incompreensíveis. Notaremos que o tempo passou. Implacável. Ficaremos velhos, gente. E teremos menos cabelo, é verdade. Mas, um dia, “maduros”, conheceremos e compreenderemos a beleza de envelhecer.

Estações do Amor

As mãos suam. O coração palpita. Os olhos cintilam.

Ah, mas que sentimento é o amor. É sublime. Quanta beleza há em amar plenamente. Aguçam-se os sentidos. Todos. O mundo fica colorido e a vida mais interessante. Quer-se desejar bom dia a todos pelas ruas e gritar ao mundo que você está amando. É hora de planejar e de dividir. É hora de sonhar.

A cabeça vacila. O coração aperta. Os olhos choram.

Mas nem sempre nossos planos se concretizam. Sofrer por amor é inevitável. É como morrer: uma de nossas certezas nessa caminhada. E não deixa de ser uma morte. É o final de um ciclo. Vive-se um luto que vem da perda da pessoa amada, dos sonhos compartilhados, dos projetos que ficarão novamente engavetados, da preguiça de se dar ao mundo novamente e do medo de nunca mais encontrar alguém especial.
 
As lágrimas secam. O coração acorda. Os olhos brilham.

Por mais difícil que pareça, um dia, o sofrimento passa. Depois de tantas manhãs sombrias, um dia, você acorda sorrindo. Surpreende-se e contagia-se com a própria felicidade. A partir daí, você, que antes se sabotava, vira o seu maior cúmplice. É uma descoberta incrivelmente prazerosa. Tornar-se a sua melhor companhia não é nada mau, hein? Admirar-se e sentir-se completo sozinho é outro dos sentimentos lindos do existir e, veja, é outra forma de amar. É amor próprio.

As pernas tremem. O coração floresce. E os olhos, finalmente, amam outra vez.

Sem pedir licença, o amor chega outra vez. E você pensou que nunca mais se apaixonaria. Que bobagem a sua! O ciclo começou de novo e você tem uma nova chance de viver a felicidade na sua plenitude. O amor é a busca do ser humano. E toda forma de amar é revolucionária!

Saudosa Belém



“Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu”.

Oh, minha amada cidade, são versos da canção “Pedaço de Mim” de Chico Buarque de Hollanda: uma triste música que reflete com precisão cirúrgica a desventura de milhares de mães – que são tuas filhas. Quantos quartos teus precisarão ser arrumados, Belém?

No sombrio ranking das capitais mais perigosas do Brasil, figuras como a quarta mais ameaçadora. Mas se considerarmos a totalidade de municípios brasileiros, tu, uma capital, estás no trigésimo quarto lugar. Um detalhe: existem aproximadamente cinco mil e quinhentos municípios no nosso país!

Minha querida Belém, o que fizeram contigo? Transmudaram-te. Ver-te-ei ainda como costumavas ser? Sinto uma saudade enorme do tempo em que andava tranquilamente por tuas ruas. Saudade de poder andar por ti pensando em mim. Por que te abandonaram? Por que me abandonaram?

Precisamos resgatar-te, assim como o orgulho que sentimos por sermos teus. Chegamos a um nível crítico e insustentável de insegurança e de degeneração social. Confesso que já senti pavor por morar em ti. Mas o descaso com que foste e tens sido tratada fez nossa passividade ser substituída pelo ativismo. É, Belém, vamos nos unir para te dar de volta aos nossos filhos. Tu és bela e és nossa!

Nós, o povo que te habita e que te ama, nos organizaremos e interpelaremos com efetividade aqueles que te “governam” (nem governam a si mesmos, não é, cidade querida?). Nós precisamos fazer isso – por ti, por nós e pelos nossos. Não nos calaremos mais uma vez. Na verdade, reivindicaremos, sem medir nossos esforços, o direito de ir e vir com segurança à sombra de tuas mangueiras. Deixaremos de ser reféns, reconquistando a nossa e a tua liberdade.

Recuperaremos o prazer de viver em ti. Prometo que ainda poderemos sentar à porta de nossas casas e saborear teu açaí, teu tacacá e ótimas conversas. Iremos aos próximos Círios de Nazaré e não nos preocuparemos com roubos e furtos em tuas avenidas, em plena comemoração religiosa.

Foste desprezada. É muito triste te dizer isso. Mas podes ficar esperançosa. Com nossa ajuda, também farás a tua parte e formarás cidadãos dignos e conscientes de teu valor. Essas pessoas sempre lutarão pelo direito de te ver linda e segura, como um dia foste, minha querida Belém.