quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Diálogo de Bastardos Inglórios

Diálogo entre Cel. Hans Landa e Monsieur La Padite (coronel nazista e agricultor francês judeu, respectivamente, personagens de Bastardos Inglórios) que remete às "discussões" e diferenças do eleitorado brasileiro:

Landa - Mas acredito que o atributo que o povo alemão compartilhe com um animal, seja a astúcia e o instinto predatório de um falcão. Já os judeus compartilham o atributo comparável ao de um rato. 
A propaganda do Fuhrer e de Gobbles diz quase a mesma coisa. Onde nossas conclusões diferem, é que não considero a comparação um insulto. Considere por um momento o mundo de um rato. É um mundo hostil, de fato. Mas se um rato entrar pela sua porta agora, o trataria com hostilidade?


La Padite - Eu suponho que sim.


Landa - O rato já te fez algo para criar essa aversão que sente por eles?

La Padite - Os ratos transmitem doenças e mordem as pessoas.

Landa - Os ratos causaram a peste bubônica, mas foi há algum tempo. Tanto ratos quanto esquilos transmitem as mesmas doenças. Concorda?

La Padite - Sim.


Landa - No entanto, presumo que não sinta a mesma aversão a esquilos, não é?

La Padite - Não, não sinto.

Landa - E ambos são roedores, não? E exceto pela cauda, são bem parecidos, não?

La Padite - É um pensamento interessante, Herr Coronel.


Landa - Apesar de interessante, não fará diferença em como se sente em relação aos ratos. Se um rato entrar pela porta, agora, e andar por aqui pela sua casa como andei, você o ofereceria um prato do seu leite?

La Padite - Provavelmente não.

Landa - Eu achei que não. Você não gosta deles. NÃO SABE POR QUÊ. Só sabe que os acha repulsivos.


Meu (Yuri) comentário: Esse diálogo veio da mente criativa do inteligente Quentin Tarantino. Landa é fictício e nazista, mas nos passa uma mensagem interessante do que sentiam os alemães nazistas pelos judeus, naquela época. Repulsa e não se sabia o porquê. Não importa, rato ou esquilo, judeu ou nazista, petista ou psdbista, Serra ou Dilma, estamos no mesmo barco. Principalmente, nós, brasileiros. Nossas discussões deveriam ser mais respeitosas e construtivas. E deveríamos tentar, pelo menos, ser menos ofensa, mais inteligência e nos despir de nossos preconceitos. "Você não gosta deles. NÃO SABE POR QUÊ. Só sabe que os acha repulsivos". ;)

sábado, 23 de outubro de 2010

Quero dizer que te amo só de amor (Roberto Freire)





Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras, pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no papel.
Ser-nao-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes. Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen. São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e dançam fazendo o amor como faço o poema.
Quero da vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grande amor, mas virá sempre antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço. Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me das o gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca.


Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.

(Roberto Freire)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Esse Cara

Quando criança, ele era tímido, retraído e, muitas vezes, mal-humorado. Entre familiares, era carinhoso e brincalhão. Contraditório. Uma criança impaciente. Brincava como todas as outras e pensava como nenhuma. Era inquieto, na mente e no corpo. Porém, desde essa época, percebeu-se que a paixão pautaria a sua vida. Não somente por pessoas: tudo, potencialmente, era objeto de suas paixões. Apaixonava-se facilmente por qualquer coisa. 

Com mais idade, foi perdendo a timidez. No entanto, menos tímido ele ficava, mais agressivo aos olhos dos outros parecia. Mas ele era amável. E pouca gente percebia. Começou a notar que precisaria de mudanças. Para ter e cultivar amigos – e estes ele não abandonaria até o final da sua vida –, tentou, muitas vezes sem êxito, controlar a impulsividade. Conseguiu, algumas vezes, ter estabilidade e solidez emocional. Ele era “de lua”, como diziam os amigos e as primeiras namoradas. Melhorou, sem dúvida. Mas aquela alma era febril. Não sossegaria nunca. Sentia sempre falta de alguma coisa em si e isso parecia ser o seu próprio combustível. Era isso que o impulsionava a procurar melhorias em seu ser. 

Esse cara defendia com tanta força e emoção suas opiniões que todos julgavam que ele estava brigando. Nada disso, gente. Era paixão! Paixão pelo debate. Nada poderia impedi-lo de dizer tudo que estava em sua cabeça quando ele achava que estava certo - mesmo que viesse a se arrepender depois. E quantas vezes arrependeu-se! O seu instinto impulsivo o traiu em inúmeros momentos. E tantas foram as vezes que esse mesmo instinto o salvou. 

Entregava-se às paixões e aos amores com voracidade. Tinha mesmo um apetite devorador e insaciável. Adorava uma frase do Cazuza que dizia: "Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta". Ligava a seus relacionamentos. Mas, às vezes, saía deles com a mesma rapidez e violência com que havia entrado. Sofreu um tanto, mas foi, assim, feliz em grande parte da sua vida. Costumava dizer que a busca incessante do ser humano é o amor. E acreditava nisso. 


Relacionava-se com sua família com mais amor e paixão ainda. Parecia não caber dentro daqueles seres tanto sentimento. Eles eram tanto coração, era tanto sentimento, que foi inevitável não haver brigas também. Mas não havia um ser no mundo que não visse uma desmedida beleza na relação daqueles três. Foi a coisa mais forte e bonita que eu já vi na minha vida. 

Esse cara era contraditório em essência, o que revelava o quão humano ele era por trás das impressões que deixava por aí. Personalidade fortíssima, gênio difícil, senso de humor sem rival, às vezes grosseiro, mas com um coração do tamanho do mundo e um senso de justiça que carregava desde a infância. Poderia até ser grosso, mas dificilmente cometia injustiças, e se o fizesse, tinha a humildade de reconhecer os erros, consertá-los e desculpar-se de todo o coração. 

Eu que conheci, posso dizer: esse cara foi um guerreiro. Travou lutas intermináveis contra si mesmo. Lutou contra as contradições. As suas e as do mundo, ao seu jeito. E, digo: além de guerreiro, foi um vencedor. Conseguiu mudar o mundo ao seu redor. Marcou a vida de pessoas maravilhosas. Buscou o bem, sempre, para si e para os outros. Foi, sobretudo, corajoso para encarar suas imperfeições e buscar incessantemente o amor. O amor por si e pelo ser humano. E conseguiu. 

Uma Certa Galinha Assada (texto do meu pai Álvaro Jinkings)

Ainda não me adaptei a internet, confesso-me um analfabeto completo, um preguiçoso talvez um “tecnófobo”!

Quando eu vi o blog do meu pai Raimundo Jinkings me veio muita história, talvez 40 anos em 1 minuto e tudo muito rápido, quase instantâneo. E somem. É como se eu fosse obrigado a fugir destes pensamentos; pra não sofrer, certamente. É o nosso incrível instinto de defesa e de sobrevivência.

Vou tentar me desbloquear, e viajar alguns momentos da minha grande e educativa convivência com 
“Mi Viejo”. Acho que pouquíssimas vezes me lembro dele me dizer:
- Faz assim! ou
- Não faz assim !

Ele me ensinava de outra forma, ele dava exemplo toda hora. Prestando atenção nos mínimos detalhes, eu aprenderia muito pro resto da minha vida. Eu me orgulho muito de ser filho dele: A humildade, a garra, a sabedoria, o equilíbrio, a obstinação e a determinação em lutar! Ele, pelos menos favorecido, pelos excluídos, não tinha apego ao dinheiro e nem ao poder. Inteligentíssimo, um verdadeiro autodidata, presenciei discussões homéricas dele com juizes, advogados, políticos, sindicalistas, estudantes, etc. Qualquer assunto ele dominava, menos futebol! Onde eu dava um show nele.

Nas poucas vezes em que eu não lhe entendi recorri à mamãe, a pessoa que mais o conhecia. Ela o interpretava com ternura e compreensão!

Lembro que apesar das inúmeras provocações e discriminações, nunca deixei de amar e entender “Mi viejo” como o maior de todos, o mais patriota, o mais coerente ( a cada dia que passa mais o valorizo ou seja quanto mais vivo, quanto mais conheço o mundo, mais o valorizo, e mais eu tento imitá-lo).

Hoje conto pro Yago, meu caçula as histórias do Vovô Jinkings que infelizmente ele não conheceu. Mayra e Yuri conviveram com ele por quase 10 anos, não o ideal, nem o necessário, mas o possível!

Aconteceu um fato quando eu ainda era criança que sempre me vem a cabeça. É um momento de absoluta covardia, e a mamãe me pediu para eu relatar aqui: Papai acabara de passar mais ou menos 90 dias preso na 5ª Cia de Guardas e nós (eu e mamãe) fomos até lá para trazê-lo para casa, onde meus irmãos nos aguardavam. Saíamos nós três, ele no meio de mãos dadas com mamãe e apoiando a mão no meu ombro, não chegamos a caminhar 100m quando parou um jipe do exército do nosso lado e perguntou: - Sr. Raimundo Jinkings? - Sim! Papai respondeu. – Queira me acompanhar por favor ! – Temos uma ordem de prisão! Ele, inabalável! Beijou a mamãe, me sorriu e entrou no jipe. Mamãe desabou! Era a tortura psicológica, a sacanagem, a covardia! Era a ditadura na sua face mais cruel, foram mais uns 15 dias no 26º BC 
[1], quando finalmente nós pudemos comer a “galinha assada” pra comemorar sua liberdade. Desta vez fomos todos buscá-los num táxi grande, um aerowillis. Talvez a mamãe pensasse em trazê-lo “na marra”, caso aparecesse outro jipe.

Depois eu conto a do porco, ou melhor: o Yago vai contar a do porco, viu vó!

ÁLVARO JINKINGS

[1] 26º Batalhão de Cavalaria