Gregos incendeiam Atenas diante de reduções na previdência, nos salários e em outros gastos sociais;
Chilenos reúnem-se para relembrar, sem a menor saudade, o golpe militar de 1973;
Espanhóis organizam manifestações, inclusive com greve geral, em resposta às medidas de austeridade impostas pela União Europeia e aos projetos de mudança na legislação trabalhista;
Franceses, incluindo estudantes secundaristas, defendem impetuosamente sua posição em face da reforma previdenciária aprovada pelo Senado;
Mulheres paquistanesas fazem reivindicações trabalhistas em Lahore;
Estudantes universitários e secundaristas ingleses opõem-se ao aumento de mensalidades e cortes no ensino superior;
Bolivianos protestam diante do aumento no preço dos combustíveis;
E nós?
E nós, meu amigo?
ResponderExcluirCada dia mais insanos, cumprindo fielmente os mandamentos da Rede Globo. Consequência disso são brasileiros cada vez mais ignorantes, passivos, com conversas horrorosas, superficiais e limitadas. O pior é ver a a veemência na defesa desses valores, tidos como únicos. É mole?!
Nós, brasileiros e brasileiras, também estamos construindo espaços públicos de militância política. Não necessariamente da mesma forma que os exemplos citados, mas ainda assim não podemos desconsiderar um avanço significativo na estruturação dessas forças de reivindicação democrática precipitadas na sociedade civil.
ResponderExcluirLembrei, de pronto, de dois exemplos (a mim muito significativos, dado que tocam em um dos pontos mais sensíveis das estruturas oligárquicas brasileiras):
1. A lei da ficha limpa: sem considerar seu conteúdo normativo (tenho certas reservas sobre sua constitucionalidade), o fato de tal lei partir de uma mobilização da sociedade civil organizada (encabeçada pela MCCE) foi de grande significação: o povo, ao exigir certa conduta do Poder Legislativo, despertou sua consciência à importância que este poder tem para a estruturação de uma democracia substantiva.
Ora, é a partir da atividade legiferante que condutas são estabelecidas à administração da coisa pública; e o “cidadão médio” começa a tomar consciência disto, pois percebeu que um apelo organizado (no caso, uma ato de democracia participativa, direta), pode influir decisivamente na condução da coisa pública.
2. A bolinha de papel na cabeça do Serra: a blogosfera desponta, sem dúvida, como um novo (e poderoso) espaço de mobilização política.
Novo porque só nos últimos anos que houve um fomento e a democratização da banda larga (processo que chamamos de inclusão digital, que ainda está em seu início).
Poderoso porque está desarticulando e enfraquecendo o poder da “velha mídia.” E o exemplo emblemático dessa constatação foi justamente a bolinha de papel do Serra, que feriu tanto a credibilidade da Rede Globo (Veja, Folha de São Paulo & Cia), quanto do próprio José Serra.
Enfim, o PiG (Partido da Impresa Golpista: apelido dado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim à velha mídia) foi pego na mentira. E graças à mobilização dos cyberativistas, que tanto identificaram a farsa quanto divulgaram a verdadeira notícia.
Assim, apesar de termos muito (mas muito mesmo) a crescer no quesito de mobilização popular, não podemos ignorar as vitórias já conquistadas.
Benja e Hugo,
ResponderExcluirO que nos diferencia é uma visão mais ou menos otimista em relação ao ativismo político dos cidadãos brasileiros. Mas temos um ponto de concordância: nós três pensamos que a sociedade brasileira tem muito a evoluir nesse aspecto.
Queria que vocês percebessem - e acho que perceberam - a distância temporal entre a manifestação do estudante secundarista francês e o dano efetivo que lhe será causado com a mudança nas normas que definem o sistema previdenciário naquele país. Vocês notaram que os exemplos não dizem respeito apenas a países europeus, ou com histórico socialista. É muito relevante uma mulher paquistanesa - o Paquistão é uma República Islâmica - clamar por melhores condições de trabalho. É bravura. É vanguardismo. Na Bolívia, o povo não aceitou o aumento - que, frise-se, seria de mais de 80% - no preço dos combustíveis, que teria reflexos em toda a economia (preço do pão ao preço de um computador). Qual foi o resultado? Vocês viram: Evo Morales revogou a medida, por considerá-la inoportuna, tendo em vista a sua não aceitação pela sociedade. Populismo ou manobra política de Evo? Acho que o que importa é que houve resultado e o desfecho foi positivo para o povo.
Não podemos desconsiderar - e, nesse ponto, concordo contigo, Hugo - os nossos avanços. Mas, na minha opinião, é muito pouco ainda, diante das próprias possibilidades que nossa Constituição nos oferece em termos de democracia participativa (controle social).
Além dessas possibilidades, o que impressiona negativamente é que vivemos períodos negros, ontem ainda. Redemocratizamos o país em, pelo menos, três oportunidades. Destituímos Collor do cargo de Presidente da República, há quase 20 anos, através de mobilização popular. Temos nossos próprios exemplos desde a Cabanagem, passando por todos os movimentos contrários à Ditadura e chegando ao impeachment do Collor. Ainda não assimilamos - como sociedade - que é o que deve ser feito? O que estou tentando dizer é que a sociedade brasileira já deveria, pelas nossas circunstâncias históricas, ter se politizado um pouco mais.
Eu gostaria de ver a direita e a esquerda se levantarem, sim, e gritarem as suas insurgências, oportunamente. Mas sem preconceito. Sem covardia. Sem fanatismo. Sem cegueira. Sonho em poder ver ativismo político, mas com argumentação, inteligência, convencimento, caráter e humanidade, independente da posição político-ideológica. E para termos avanços de verdade na mobilização da sociedade, a direita precisará exercer um papel fundamental: ela terá que se conformar à sua transformação em esquerda e usar, não o capital, mas os meios que se disponibilizam a todos, igualmente.
Um abraço,
Yuri,
ResponderExcluirConcordo com você em tudo que você falou sobre os países citados, com exceção do Brasil.
Tais divergências quando tratamos do Brasil talvez sejam fruto de minha ainda inicial militância política - apartidária (limitada a alguns espaços universitários [leia-se: mesas de bares] e ao terceiro setor).
Bom, vamos aos conflitos de idéias:
Acredito que nossas circunstâncias histórias são, diferentes do que você defende, agravantes de nossa condição política.
Indo mais além na história (e visitando as “Raízes do Brasil”), temos que nossa democratização foi um dado vertical e não uma conquista, com mobilização popular.
Considere que as massas não foram incorporadas (ou não se incorporaram) aos processos políticos que levaram o Brasil à Democracia. Tivemos, sim, levantes populares, mas levantes localizados, com pouca aceitação social e fortemente reprimidos.
E assim foi com o processo de libertação dos escravos (que se deu mais pela pressão internacional que por uma força interna).
E assim foi com a proclamação da Repúlica.
E mais, ainda me apropriando dos argumento de Sérgio Buarque de Hollanda, temos que a democracia no Brasil não veio acompanhada da construção de uma identidade de povo (o povo não precisou “nascer” para conquistar a democracia, já que ela nos foi dada de “bom grado”).
Nossa democracia era (e talvez ainda seja, mas não como antes), como disse o professor Fábio Comparato, uma democracia sem povo.
Diria que nossa democracia tem um povo em construção.
Por isso que estou mais otimista em relação à participação política do brasileiro e da brasileira: acredito que a partir das mobilização nacional pela Constituição de 1988, seguindo com derrubada de Collor e pela eleição de um popular para presidente da república (o Lula), estamos no caminho para uma participação mais efetiva do povo nas instituições da Democracia (de nossos 511 anos de história, temos uma mobilização política do povo nos últimos 25 anos e já fizemos o que fizemos é, ao meu ver, motivo para comemorar).
Agora, tal processo seria muito mais eficiente se:
concessões de serviço público (como os canais de TV) não fossem tão descaradamente usados contra o desenvolvimento de uma identidade nacional;
políticos da direita, em coro com o que há de mais fascista em nossa sociedade, não criminalizassem movimentos sociais ou nordestinos;
os políticos não ficassem tão a mercê do financiamento privado de suas campanhas (porque, infelizmente, campanhas políticas precisam de (muito) dinheiro - sou defensor do financiamento público das campanhas;
houvesse um amplo investimento (tanto qualitativo quanto quantitativo) em nossos sistema educacional.
Bom, é isso.
Espero que tenha contribuído para o debate.
Abraço!
Hugo, primeiramente, queria te dizer que escreves muito bem e que contribuíste demais, sim, pro nosso "debate".
ResponderExcluirQuanto ao teu pensamento, acho que não se afigura como singularidade a situação por que passa (e passou ao longo da história) o Brasil. Acho que, por natureza, os movimentos populares e a organização da sociedade civil sempre vão ser reprimidos de perto e até combatidos.
Penso que a evolução política de uma nação é (quase - palavra usada por ter havido raríssimos instantes de exceção que, geralmente, não representaram avanço nenhum no final das contas) sempre fruto de conquista. A pressão é que pode ser exercida de diferentes maneiras - da luta armada à opinião pública. Não há concessão. Mesmo com pacificidade, o Governo não concede. É o povo que conquista, com patrulhamento maior ou menor. Ou o Lula concedeu todas nossas atuais conquistas? Eu poderia argumentar que sim, se adotasse a tua premissa. Fica fácil eleger os momentos da nossa história em que houve um mínimo de mobilização popular e classificá-los ora em isolados, ora em fortemente reprimidos, ora, quando interessar ao historiador ou cientista político, como engrandecedores e marco divisório pra uma nova história de comprometimento e desenvolvimento do brasileiro e da brasileira. O que me permito cobrar é um diferencial relevante entre esses - para mim, todos - momentos que se deveriam afeiçoar como marcos históricos.
Bom, teríamos que considerar que as "conquistas" dos últimos 25 anos, que citaste, não foram conquistas. Foram resultado de um "dado vertical". Afinal, a repressão diminuiu, mas a aceitação social continua muito pequena. Os movimentos continuam sendo localizados, aliás como soem ser os movimentos populares em todo o tempo e em todo o mundo. Aqui, acho que excepcionaste a regra, como se alguma particularidade brasileira houvesse na circunstância de ter havido "levantes localizados, com pouca aceitação social e fortemente reprimidos".
Pergunto: foi diferente na história dos outros países? As mães da Praça de Maio, em Buenos Aires, pra citar o primeiro exemplo que me veio à cabeça, tiveram tranquilidade para se reunir, para se organizar, sendo mulheres e num país recém-saído da ditadura? Não é natural que haja forte repressão à mobilização do povo justamente por conta daquilo a que ela se propõe?
E mais, no prisma dos governantes, em que difere a mobilização popular dos últimos anos dos levantes do passado? Quais setores da sociedade civil estão, hoje, organizados e preparados para interpelar os governantes, os parlamentares e o próprio Judiciário? Nenhum.
Na minha opinião, não desmereci os avanços dos últimos anos. Mas confesso - repito a confissão - que não estou nem um pouco satisfeito com a "quantidade" de avanço. Não acho que nossa mobilização política se resuma aos últimos 25 anos. Pelo contrário, acho que a consciência democrática surge com a resistência à ditadura, no seu berço. Valorizo o que foi feito naquela época, pelo meu avô, por exemplo, e por tantos outros.
A minha opinião é mesmo - volto a afirmar - de que o brasileiro pouco aprendeu com os exemplos que transitaram à frente do seu nariz. Estás tendo, hoje, mais alguns exemplos pelo mundo. Os meus, do texto, já estão quase anacrônicos.
Bom, mas é isso aí. Espero que nos desenvolvamos bastante nesse aspecto, daqui pra frente.
Abraço,