sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Saudosa Belém



“Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu”.

Oh, minha amada cidade, são versos da canção “Pedaço de Mim” de Chico Buarque de Hollanda: uma triste música que reflete com precisão cirúrgica a desventura de milhares de mães – que são tuas filhas. Quantos quartos teus precisarão ser arrumados, Belém?

No sombrio ranking das capitais mais perigosas do Brasil, figuras como a quarta mais ameaçadora. Mas se considerarmos a totalidade de municípios brasileiros, tu, uma capital, estás no trigésimo quarto lugar. Um detalhe: existem aproximadamente cinco mil e quinhentos municípios no nosso país!

Minha querida Belém, o que fizeram contigo? Transmudaram-te. Ver-te-ei ainda como costumavas ser? Sinto uma saudade enorme do tempo em que andava tranquilamente por tuas ruas. Saudade de poder andar por ti pensando em mim. Por que te abandonaram? Por que me abandonaram?

Precisamos resgatar-te, assim como o orgulho que sentimos por sermos teus. Chegamos a um nível crítico e insustentável de insegurança e de degeneração social. Confesso que já senti pavor por morar em ti. Mas o descaso com que foste e tens sido tratada fez nossa passividade ser substituída pelo ativismo. É, Belém, vamos nos unir para te dar de volta aos nossos filhos. Tu és bela e és nossa!

Nós, o povo que te habita e que te ama, nos organizaremos e interpelaremos com efetividade aqueles que te “governam” (nem governam a si mesmos, não é, cidade querida?). Nós precisamos fazer isso – por ti, por nós e pelos nossos. Não nos calaremos mais uma vez. Na verdade, reivindicaremos, sem medir nossos esforços, o direito de ir e vir com segurança à sombra de tuas mangueiras. Deixaremos de ser reféns, reconquistando a nossa e a tua liberdade.

Recuperaremos o prazer de viver em ti. Prometo que ainda poderemos sentar à porta de nossas casas e saborear teu açaí, teu tacacá e ótimas conversas. Iremos aos próximos Círios de Nazaré e não nos preocuparemos com roubos e furtos em tuas avenidas, em plena comemoração religiosa.

Foste desprezada. É muito triste te dizer isso. Mas podes ficar esperançosa. Com nossa ajuda, também farás a tua parte e formarás cidadãos dignos e conscientes de teu valor. Essas pessoas sempre lutarão pelo direito de te ver linda e segura, como um dia foste, minha querida Belém.



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