quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Carta da Saudade Escolhida

Meus caros amigos,

Passada a dor do reencontro – é, porque reencontrá-los, mas ter que deixá-los tão rapidamente dói de verdade –, estou pronto pra rabiscar algumas palavras sobre os sentimentos que me inundaram na primeira metade desse maio tão bacana.

Depois de quase um ano e algumas oportunidades ignoradas, decidi ir a Belém. E não se tratava de uma ida qualquer. Além de tudo, minha maior amiga, minha irmã Mayra, que eu não via há um ano e meio, também iria. O planejamento do encontro coube a Mi Viejo, que organizou com a Mayra a viagem dela e me fez a seguinte intimação: “esteja em Belém no primeiro dia de maio e passe uma semana, no mínimo, filho”. Negócio fechado na mesma hora.

Passamos, então, à ansiedade do encontro. A Mayra chegaria ao Brasil por São Paulo, minha cidade atual. Com várias pessoas especiais para encontrar por aqui, mas uma única noite antes de viajarmos, ela me incumbiu da escolha de algo bem bacana, algo bem Brasil, bem a gente. Escolhi cervejas estupidamente geladas, amigos também forasteiros e Chico Buarque. Escolhi o Roda Viva, um bar sob medida para uma noite com as proporções de nossa tanta saudade.     

Na manhã seguinte, fomos ao encontro de vocês, em Belém. E fomos mimados do primeiro ao último dia. Por vocês e também por novas e excelentes companhias. Mimo com comidas, com ternura, com conversas, com risos e com palavras sinceras. Foi uma impressionante reafirmação de muita amizade e de muito amor. Sentimentos esses por muita coisa que andava voluntariamente guardada na despensa, fruto de nosso incrível poder de autodefesa. Para não sofrer de saudade, certamente. Estar em Belém foi uma espécie de embriaguez constante de encantamento e de alegria. Foram dias fantásticos e noites maravilhosas, que deixaram, no final, um gosto de queremos-muito-mais.

A verdade é que as duas semanas passaram voando – e eu ia cometer o equívoco de ficar apenas uma. Não vimos todos que gostaríamos. Não fomos a todos os lugares que desejamos. Mas estivemos sempre ocupados com as coisas mais gostosas da vida. Acho que, na nossa breve estada, os dias não se dividiram em horas, em minutos. Houve uma reavaliação do tempo e pudemos, dentro de nossas possibilidades humanas, fazer o melhor na nossa Wonderland. Olha que ainda houve um tempinho – antes de dormir – pra pensar em fazer isso para sempre.   

Fomos embora com uma sensação de resgate de tantas coisas boas... Eu quero registrar a saudade que vou sentir de todos que foram minimamente especiais. Foi impossível não sentir uma grande dificuldade em ir embora. Não pude deixar de sentir uma dor no coração por deixar o Yaguinho dizendo que sentiria “muita saudade dos manos”. Não deu pra não pensar na falta – física mesmo – que me farão papai, mamãe, irmãos, Lu e tantas outras pessoas maravilhosas. 

Nos últimos dias, conversando sobre a inevitável tristeza de ir embora com a Mayra, que sofria com a sua partida – mais uma partida – para a Europa, ela me contou que disse a papai que não queria voltar. Ela só queria expressar o pesar de deixar. Esperava um “não, minha filha, esse momento é difícil, mas seu lugar atual é lá e vamos tocar o projeto!” e recebeu um “e aí, filha? Mas e aí?”. Difícil, hein? Percebi o quanto aquilo também me afligia – é que ocorre uma proporcionalidade entre o quanto é bacana estar num lugar e o quanto é complicado deixá-lo. Compreendi, porém, o quanto é necessário e importante, nesse momento, esse afastamento. E essa saudade voluntária. É, porque se trata de uma saudade pensada, pesada e escolhida por nós. As nossas escolhas têm peso e nos cabe suportá-lo.

Notei que, independentemente do que aconteça nos próximos meses ou anos e das decisões que tomemos, teremos sempre Belém. Teremos sempre vocês. “Fechamos lindos ciclos para abrir outros mais belos ainda, meu amor”, foi o que minha irmã me disse. Confio nisso. Tenho certeza que essa ida foi muito significativa. Foi emblemática. E deu início a um tempo em que minha terra e minhas pessoas – vocês, minha famíla e meus amigos – serão mais lembrados e valorizados ainda. E a todo o momento.

Um beijo enorme e um até breve cheio de saudades,

Yuri Jinkings

3 comentários:

  1. As vezes, até eu, mano, até eu, me assusto com a nossa semelhança. Acho que se eu escrevesse aí embaixo "Mayra" ao invés de Yuri, todos acreditariam que eu que o tinha escrito.
    Inclusive eu mesma acreditaria.

    Nos tornamos tao cúmplices e compartilhadores de sonhos, desejos, receios e pensamentos que nos confundimos um com o outro. Parece uma mescla de XY de mesmo sangue.

    Chegamos à Belém ainda sentindo um frio grande na barriga com grandes expectativas (quem não tem?). Inclusive eu e tu nos estremecemos em algum momento, ainda nos acostumando com tanta saudade ABAFADA, com tanta vontade de gritar engasgada, com tanto amor pra trocar que estava sendo guardado.

    Passado o momento inicial, as tão ambíguas expectativas foram superadas! O acolhimento, as sensações, os melhores amigos de sempre nos fazendo resgatar nossa identidade, nos fazendo sentir dentro uma comunicação silenciosa e a mais entendida do mundo, a dos olhares que não precisam de palavras; nossa família cada vez mais cheia de amor e de admiração, pessoas "novas" e excelentes, encantadas até que nos provocaram um deslumbramento lindo e, quem mais? Eu e tu! Nosso bastar tão completo e admirado só fortaleceu, só foi mais digno.

    Nós dois, MaYuri, nos bastamos como melhores amigos,em casa, na rua, nas músicas, nas conversas, na viagem pra Cuiarana, no entendimento, na compreensão de olhares, no bem-querer. Sou tão melhor contigo, te disse.

    E essa ida à Belém, juntos, foi essencial pra continuação do nosso caminho, dos projetos pessoais e profissionais. Te lembra quando te disse que parece que o amadurecimento vem com mais força esses tempos? Antes de ir, amadureci em varias coisas. Chegando lá, foi notório o amadurecimento de antes e o durante ali, numa proporção que eu nem imaginava poder acontecer. E voltando pra cá, parece que mais um foguete no campo da evolução disparou.

    Necessária volta, necessária partida de Belém, como no mito das cavernas de Platão, descobrimos um mundo novo que antes nem sabíamos que exista, uma magia de cores e sensações que não poderíamos saber se não tivessemos saído de Belém.


    Se Belém, antes, era a caverna; hoje, afirmo: virou Wonderland.

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  2. Não consigo me lembrar exatamente nem quando e nem como nos tornamos quase um só. E a saudade BRUTAL que nos inunda a cada separação só pode ser confortada com tanto amor, com tanta cumplicidade e admiração de longe ou perto. Haja o que houver, eu sempre estarei ao teu lado. E, sem cansar de repetir: Sou muito melhor contigo.

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  3. Carta fantastica yuri! Infelizmente nao lhe vi por aqui! Só soube de sua passagem meteórica depois.
    Quem sabe não lhe vejo por aí. abs

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