sexta-feira, 27 de abril de 2012

O peso



"Seja num quarto de hotel ou num canto qualquer, em paz ou aflito, distraído ou esperando, aquele toque de telefone me dá arrepios. A prescrição estava no prontuário do paciente, especificamente destinada aqueles cuja indicação era clara: “se necessário”. Quando nenhuma delas resolvia o problema de um dos 200 pacientes internados, o telefone tocava. E eu estava só. Pois no início da madrugada de uma terça, ele tocou. A paciente era uma jovem com AIDS. Ela viveu seus últimos dias acompanhada pela mãe e uma desconhecida no leito ao lado, também aidética. Nem sabia da sua história. E como poderia? Nem uma noite inteira seria suficiente para o conhecimento dos 200. E esse encontro não poderia ser de maneira mais triste. Uma jovem que nem sequer deu safra, que se foi num quarto quente e abafado, molhada pelo mais fétido excremento das entranhas humanas. Eram até desnecessárias as evidências científicas. A morte estava lá, inconfundível. E no rosto da mãe, cansaço. Não daqueles que se resolvem com uma boa dormida num domingo qualquer. Mas o da luta contínua, por vezes desesperada, que antecede o momento em que os olhos de ambas se cruzam e dizem: “Vai, tenta descansar!”."

(a autoria é de um grande amigo)

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