"Seja num quarto de hotel ou num canto qualquer, em paz ou
aflito, distraído ou esperando, aquele toque de telefone me dá arrepios. A
prescrição estava no prontuário do paciente, especificamente destinada aqueles
cuja indicação era clara: “se necessário”. Quando nenhuma delas resolvia o
problema de um dos 200 pacientes internados, o telefone tocava. E eu estava só.
Pois no início da madrugada de uma terça, ele tocou. A paciente era uma jovem
com AIDS. Ela viveu seus últimos dias acompanhada pela mãe e uma desconhecida
no leito ao lado, também aidética. Nem sabia da sua história. E como poderia?
Nem uma noite inteira seria suficiente para o conhecimento dos 200. E esse
encontro não poderia ser de maneira mais triste. Uma jovem que nem sequer deu
safra, que se foi num quarto quente e abafado, molhada pelo mais fétido
excremento das entranhas humanas. Eram até desnecessárias as evidências
científicas. A morte estava lá, inconfundível. E no rosto da mãe, cansaço. Não
daqueles que se resolvem com uma boa dormida num domingo qualquer. Mas o da
luta contínua, por vezes desesperada, que antecede o momento em que os olhos de
ambas se cruzam e dizem: “Vai, tenta descansar!”."
(a autoria é de um grande amigo)
Ele escreve bem, o Kurt.
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